No 9º dia de viagem, acordamos
cedo, conforme prometido no dia anterior, para chegar o quanto antes em Ushuaia
e aproveitar o dia ao máximo. Às 9 da manhã, já estávamos todos no carro,
prontos para pegar a estrada.
Voltamos à Ruta 3, saindo de Río
Grande, uma cidade de 66 mil habitantes e com uma estrutura de serviços bem
considerável: tinha vários supermercados grandes (incluindo um Carrefour),
casas de câmbio e vários hotéis. Além disso, muitos monumentos: havia uma truta
enorme logo na entrada da cidade, que lembra que o local é famoso por ser um
ótimo lugar para pesca esportiva, e vários relembrando a Guerra das Malvinas
(os aviões argentinos que bombardearam a marinha inglesa saíram, em sua
maioria, de Río Grande). Como estávamos com pressa, acabamos não tirando fotos,
algo que me arrependi mais tarde.
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| Casas em Tolhuin |
Já na Ruta 3, após rodar alguns
quilômetros, já notamos mudanças drásticas na paisagem: a grande planície seca,
sem uma árvore sequer, vai gradativamente dando lugar ao pé da Cordilheira dos
Andes, toda coberta de pinheiros. Segundo nosso guia, havia um vilarejo chamado
Tolhuin entre Río Grande e Ushuaia, e decidimos parar para conferir algumas
opções de estadia, caso estivesse tudo lotado em Ushuaia. A parada, que era
despretensiosa, acabou se revelando uma das melhores surpresas da viagem: um
vilarejo pequeno e calmo, com chalés de telhado triangular e rodeado de
pinheiros. Por um minuto, me senti na Europa.
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| Vista para um dos lados da cidade |
Descendo por uma estradinha de
rípio que saía da cidade, chegamos a uma das paisagens mais bonitas da viagem
até então: o Lago Fagnano, o maior e certamente um dos mais bonitos da Terra do
Fogo. Uma costa cheia de seixos brancos e acinzentados, com uma água calma,
doce (ok, eu provei um pouco) e gelada. Sem contar a cadeia de montanhas
nevadas ao fundo; verdadeira paisagem de cartão postal.
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| Às margens do Lago Fagnano, em Tolhuin |
Depois de Tolhuin, voltamos à
Ruta 3 para os próximos 100 km até Ushuaia. Este é o trecho onde a estrada
cruza os Andes, portanto, como era de se esperar, é bastante sinuoso e exige
alguma atenção do motorista. Mas o maior perigo não são exatamente as curvas,
mas sim a paisagem em volta: é tão bonita que pode acabar te distraindo
enquanto você dirige. Falo por experiência própria: estava olhando para as
montanhas e tive que frear bem em cima de uma curva fechada que vi no último
segundo. Por sorte, existiam vários mirantes neste trecho, onde era seguro
parar o carro e admirar a paisagem. Foi em um desses que tirei a foto abaixo, outra
digna de cartão postal.
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| Vista do Lago Escondido de um mirante na Ruta 3 |
Chegamos em Ushuaia, finalmente,
às 12:50. Já na estrada, têm-se uma bela vista de toda a cidade, sua orla e seu
porto, mais movimentado do que esperava que fosse. Fomos direto procurar um
lugar para ficar, e após algumas tentativas frustradas, encontramos um hostel bem aconchegante, com banheiros
coletivos e, raridade, um wi-fi decente. Os donos, um casal argentino, foram
muito simpáticos e solícitos, e nos deram um mapa da cidade com todos os
lugares que seriam úteis. O nome do hostel
era Amanecer de la Bahía, e pagamos 333 reais (sim, eles aceitavam várias
moedas, incluindo real) por duas noites, um preço bem razoável para os padrões
da cidade.
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| Portal de entrada de Ushuaia, visto da estrada. Caso tenha esquecido, a placa o lembra que "Las Malvinas son argentinas!" |
Depois de acertar o valor do
hostel, fomos direto para o centro da cidade, próximo à orla, procurar por um
passeio de barco pelo Canal de Beagle, que banha a cidade. Existiam dois tipos
de passeio: um menor, que cobria a ilha dos lobos-marinhos, das aves
migratórias e o Farol de Les Eclaireurs, no meio do canal; o outro, além de
tudo isso, também passava por uma pinguinera,
e custava quase o dobro do preço. Depois de conversarmos, decidimos que era
inadmissível chegar tão longe e não ver nenhum pinguim, e ficamos com o segundo
passeio, pelo preço de 400 pesos (~180 reais) por pessoa. Na hora achei uma
facada, mas depois vi que valeria o preço.
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| Placa mostrando a distância de várias cidade em relação à Antártida: Ushuaia é considerada a cidade mais austral do mundo |
Depois de almoçarmos em um pub (sim, um pub!), fomos para o porto para embarcarmos no passeio. Assinando o
livro de passageiros, percebi algo que já tinha visto na prática: Ushuaia é uma
cidade muito cosmopolita. No barco, tinham argentinos, chilenos, brasileiros,
americanos, italianos, franceses, gregos, japoneses e mais um monte de outros
países representados por seus turistas. O barco tinha uma parte fechada, com
mesas e um bar (extremamente caro), e um convés de dois andares ao ar livre,
onde se tinha uma excelente vista dos arredores (apesar do vento ser quase
insuportável em alguns momentos).
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| Saída do barco do porto, com vista para a cidade |
O passeio foi ótimo, do começo ao
fim. Logo na saída do porto, têm-se uma linda visão da cidade rodeada pelos
picos nevados dos Andes. As primeiras três paradas ficavam bem próximas umas
das outras: a ilha dos lobos-marinhos, que estavam esparramados tomando sol e
mal tomaram conhecimento do barco; duas ilhas com aves migratórias, que eram
bonitas mas fediam como o inferno; e o Farol de Les Eclaireurs, que não é o
famoso Farol do Fim do Mundo (que fica na Isla de los Estados, muito mais
distante), mas é tão interessante e bonito quanto. Depois, o barco se pôs em
marcha por quase 1 hora até chegarmos à tão aguardada pinguinera: uma ilha pequena, com uma praia de cascalho forrada de
pinguins. Não podíamos descer do barco, mas o valor extra pago pelo passeio
valeu a pena para ver seres tão simpáticos como pinguins.
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| Ilha dos lobos-marinhos |
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| Ilha das aves migratórias |
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| Farol de Les Eclaireurs |
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| Pinguinera |
O passeio durou ao todo 5:30 horas,
e voltamos à cidade apenas às 21:30. Detalhe: o sol ainda estava alto no céu
nessa hora. Fomos a uma mercearia próxima ao hostel e compramos macarrão para fazermos de noite. É incrível
como, depois de dias comendo salgadinho e pão com manteiga, um macarrão simples
com molho de pacotinho pode parecer tão delicioso. Era véspera de ano novo, e
saímos à rua à meia-noite para esperar pelos fogos, mas foram pouquíssimos.
Perguntamos para a dona do hostel se
não era costume soltar fogos por aqui, e ela nos disse que era proibido, pelo
alto risco de incêndios na região (seca e com ventos fortes e constantes).
Desejamos feliz ano-novo a todos no hostel
e aproveitamos para bater papo com um argentino de Mar del Plata chamado David
e uma espanhola chamada Blanca. Esse ambiente comunitário dos hostels é excelente para quem quer
conhecer novas e diferentes pessoas.
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| Feliz 2013! (sem fogos pra não incendiar tudo) |
Depois de tudo, fomos dormir com
a certeza que os contratempos do dia anterior, o cansaço e o dinheiro gasto
tinham valido a pena. Ushuaia, a ciudad
del fin del mundo, era sem dúvida um lugar incrível.
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