sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

9º dia



No 9º dia de viagem, acordamos cedo, conforme prometido no dia anterior, para chegar o quanto antes em Ushuaia e aproveitar o dia ao máximo. Às 9 da manhã, já estávamos todos no carro, prontos para pegar a estrada.

Voltamos à Ruta 3, saindo de Río Grande, uma cidade de 66 mil habitantes e com uma estrutura de serviços bem considerável: tinha vários supermercados grandes (incluindo um Carrefour), casas de câmbio e vários hotéis. Além disso, muitos monumentos: havia uma truta enorme logo na entrada da cidade, que lembra que o local é famoso por ser um ótimo lugar para pesca esportiva, e vários relembrando a Guerra das Malvinas (os aviões argentinos que bombardearam a marinha inglesa saíram, em sua maioria, de Río Grande). Como estávamos com pressa, acabamos não tirando fotos, algo que me arrependi mais tarde.

Casas em Tolhuin
Já na Ruta 3, após rodar alguns quilômetros, já notamos mudanças drásticas na paisagem: a grande planície seca, sem uma árvore sequer, vai gradativamente dando lugar ao pé da Cordilheira dos Andes, toda coberta de pinheiros. Segundo nosso guia, havia um vilarejo chamado Tolhuin entre Río Grande e Ushuaia, e decidimos parar para conferir algumas opções de estadia, caso estivesse tudo lotado em Ushuaia. A parada, que era despretensiosa, acabou se revelando uma das melhores surpresas da viagem: um vilarejo pequeno e calmo, com chalés de telhado triangular e rodeado de pinheiros. Por um minuto, me senti na Europa.

Vista para um dos lados da cidade

Descendo por uma estradinha de rípio que saía da cidade, chegamos a uma das paisagens mais bonitas da viagem até então: o Lago Fagnano, o maior e certamente um dos mais bonitos da Terra do Fogo. Uma costa cheia de seixos brancos e acinzentados, com uma água calma, doce (ok, eu provei um pouco) e gelada. Sem contar a cadeia de montanhas nevadas ao fundo; verdadeira paisagem de cartão postal.

Às margens do Lago Fagnano, em Tolhuin

Depois de Tolhuin, voltamos à Ruta 3 para os próximos 100 km até Ushuaia. Este é o trecho onde a estrada cruza os Andes, portanto, como era de se esperar, é bastante sinuoso e exige alguma atenção do motorista. Mas o maior perigo não são exatamente as curvas, mas sim a paisagem em volta: é tão bonita que pode acabar te distraindo enquanto você dirige. Falo por experiência própria: estava olhando para as montanhas e tive que frear bem em cima de uma curva fechada que vi no último segundo. Por sorte, existiam vários mirantes neste trecho, onde era seguro parar o carro e admirar a paisagem. Foi em um desses que tirei a foto abaixo, outra digna de cartão postal.

Vista do Lago Escondido de um mirante na Ruta 3

Chegamos em Ushuaia, finalmente, às 12:50. Já na estrada, têm-se uma bela vista de toda a cidade, sua orla e seu porto, mais movimentado do que esperava que fosse. Fomos direto procurar um lugar para ficar, e após algumas tentativas frustradas, encontramos um hostel bem aconchegante, com banheiros coletivos e, raridade, um wi-fi decente. Os donos, um casal argentino, foram muito simpáticos e solícitos, e nos deram um mapa da cidade com todos os lugares que seriam úteis. O nome do hostel era Amanecer de la Bahía, e pagamos 333 reais (sim, eles aceitavam várias moedas, incluindo real) por duas noites, um preço bem razoável para os padrões da cidade.

Portal de entrada de Ushuaia, visto da estrada. Caso tenha esquecido, a placa o lembra que "Las Malvinas son argentinas!"

Depois de acertar o valor do hostel, fomos direto para o centro da cidade, próximo à orla, procurar por um passeio de barco pelo Canal de Beagle, que banha a cidade. Existiam dois tipos de passeio: um menor, que cobria a ilha dos lobos-marinhos, das aves migratórias e o Farol de Les Eclaireurs, no meio do canal; o outro, além de tudo isso, também passava por uma pinguinera, e custava quase o dobro do preço. Depois de conversarmos, decidimos que era inadmissível chegar tão longe e não ver nenhum pinguim, e ficamos com o segundo passeio, pelo preço de 400 pesos (~180 reais) por pessoa. Na hora achei uma facada, mas depois vi que valeria o preço.

Placa mostrando a distância de várias cidade em relação à Antártida: Ushuaia é considerada a cidade mais austral do mundo

Depois de almoçarmos em um pub (sim, um pub!), fomos para o porto para embarcarmos no passeio. Assinando o livro de passageiros, percebi algo que já tinha visto na prática: Ushuaia é uma cidade muito cosmopolita. No barco, tinham argentinos, chilenos, brasileiros, americanos, italianos, franceses, gregos, japoneses e mais um monte de outros países representados por seus turistas. O barco tinha uma parte fechada, com mesas e um bar (extremamente caro), e um convés de dois andares ao ar livre, onde se tinha uma excelente vista dos arredores (apesar do vento ser quase insuportável em alguns momentos).

Saída do barco do porto, com vista para a cidade

O passeio foi ótimo, do começo ao fim. Logo na saída do porto, têm-se uma linda visão da cidade rodeada pelos picos nevados dos Andes. As primeiras três paradas ficavam bem próximas umas das outras: a ilha dos lobos-marinhos, que estavam esparramados tomando sol e mal tomaram conhecimento do barco; duas ilhas com aves migratórias, que eram bonitas mas fediam como o inferno; e o Farol de Les Eclaireurs, que não é o famoso Farol do Fim do Mundo (que fica na Isla de los Estados, muito mais distante), mas é tão interessante e bonito quanto. Depois, o barco se pôs em marcha por quase 1 hora até chegarmos à tão aguardada pinguinera: uma ilha pequena, com uma praia de cascalho forrada de pinguins. Não podíamos descer do barco, mas o valor extra pago pelo passeio valeu a pena para ver seres tão simpáticos como pinguins.

Ilha dos lobos-marinhos
Ilha das aves migratórias

Farol de Les Eclaireurs

Pinguinera

O passeio durou ao todo 5:30 horas, e voltamos à cidade apenas às 21:30. Detalhe: o sol ainda estava alto no céu nessa hora. Fomos a uma mercearia próxima ao hostel e compramos macarrão para fazermos de noite. É incrível como, depois de dias comendo salgadinho e pão com manteiga, um macarrão simples com molho de pacotinho pode parecer tão delicioso. Era véspera de ano novo, e saímos à rua à meia-noite para esperar pelos fogos, mas foram pouquíssimos. Perguntamos para a dona do hostel se não era costume soltar fogos por aqui, e ela nos disse que era proibido, pelo alto risco de incêndios na região (seca e com ventos fortes e constantes). Desejamos feliz ano-novo a todos no hostel e aproveitamos para bater papo com um argentino de Mar del Plata chamado David e uma espanhola chamada Blanca. Esse ambiente comunitário dos hostels é excelente para quem quer conhecer novas e diferentes pessoas.

Feliz 2013! (sem fogos pra não incendiar tudo)

Depois de tudo, fomos dormir com a certeza que os contratempos do dia anterior, o cansaço e o dinheiro gasto tinham valido a pena. Ushuaia, a ciudad del fin del mundo, era sem dúvida um lugar incrível.

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