O 5° dia seria decisivo para o
planejamento do resto da viagem. Era o primeiro dia em que faríamos uma viagem
longa em território argentino, por estradas de pista simples e com destino a
uma cidade (Viedma) que não era turística e que, portanto, poderia oferecer uma
rede hoteleira bem pequena.
Com isso em mente, partimos por
volta de 10:45, depois de uma breve despedida do Lúcio (que saiu cedo para
trabalhar). Pegamos a autopista para o Aeroporto de Ezeiza, em cujo final se
inicia a Ruta 3, que corta o litoral argentino de norte a sul e nos
acompanharia até o fim do mundo. Até o começo da Ruta 3, foram inacreditáveis 4
pedágios; apesar de baratos, o fato de ter que pagar tantos pedágios apenas
para deixar Buenos Aires mostrou que esse não é um problema exclusivo do Brasil
(mais precisamente, de São Paulo).
| Autopista Ezeiza-Cañuelas, para o aeroporto internacional de Ezeiza e o início da Ruta 3 |
Após sairmos da autopista, em
Cañuelas, entramos na Ruta 3, que tem seus primeiros 50 km duplicados, até San
Miguel del Monte. Pista boa e bem sinalizada, mas isso já era esperado: a
incógnita seria mesmo o trecho de pista simples. E quando acabou a pista dupla,
fiquei feliz de perceber que a qualidade do asfalto (praticamente impecável) e
da sinalização continuariam excelentes pelo resto da viagem. O tráfego até Azul
foi bastante intenso, com muitos caminhões, mas a estrada é tão reta que
ultrapassá-los não foi problema em nenhum momento. Consegui rodar por longos
trechos a 140 km/h, sem grandes riscos.
| Início do trecho de pista simples da Ruta 3 |
| Paisagem entre Olavarría e Coronel Pringles: extensas planícies gramadas, usadas para pasto ou plantação de soja |
Em Azul, saímos da Ruta 3 para
cortarmos caminho pela Ruta Provincial 51, que saía de Olavarría e ia até Bahía
Blanca, onde voltava a se encontrar com a Ruta 3. Outra incógnita: sairíamos de
uma estrada principal para nos aventurarmos por estradinhas provinciais. E mais
uma boa surpresa: pista ótima, muito reta e com belas paisagens pelo caminho. O
trecho entre Olavarría e Coronel Pringles (que rendeu piadinhas por causa do
nome) cruza extensas planícies cobertas de pasto e plantações de soja; após a
última, começa uma pequena serra com mais paisagens belíssimas. Havia algum
tráfego de caminhões, provenientes das fazendas no entorno, mas nada que
atrapalhasse o ritmo da viagem.
| Coronel Pringles, parente do Capitão Fandangos e do General Baconzitos |
Chegando em Bahía Blanca,
importante porto argentino, voltamos à Ruta 3. Havia tráfego intenso ao redor
da cidade, e passamos por postos policiais onde a parada era obrigatória.
Diferente de Entre Ríos, porém, não houve nenhum problema: os guardas
procuravam apenas mercadorias ilegais que poderiam estar sendo levadas para a
Patagônia, região onde a preservação ambiental é levada a sério pelas
autoridades. Pediram a carteira de motorista e os documentos do carro,
conferiram o que havia no porta-malas e nos liberaram rapidamente.
Entre Bahía Blanca e Viedma, a
Ruta 3 continua sendo uma longa reta de quase 300 km, com asfalto e sinalização
muito bons. Isso nos garantiu prosseguir com uma excelente média de horário,
mesmo com uma tempestade monstruosa nos atingindo em cheio no meio do caminho. A
paisagem de longas planícies gramadas começa a mudar aqui, principalmente após
cruzar o Rio Colorado: a grama começa a ficar mais esparsa, e as árvores dão
lugar a arbustos. Uma paisagem mais “patagônica”, portanto.
| Tempestade medonha que pegamos no caminho para Viedma: sinta o contraste no horizonte |
Chegamos em Viedma por volta das
19:40, tendo rodado cerca de 915 km. Procuramos hospedagem na cidade, mas como
todas estavam bastante caras, fomos a Carmen de Patagones, do outro lado do Rio
Negro, para tentar a sorte por lá. E achamos um hotel razoavelmente barato
(Residencial Reggiani), que nos cobrou 405 pesos (cerca de 60 reais por pessoa)
por um quarto triplo. O gerente foi muito solícito e simpático, e o quarto era
confortável, apesar do banheiro deprimente. O frio já começava a se fazer
presente: tive que tirar a blusa da mala pela primeira vez na viagem, e o vento
já começava a ficar forte.
| Pôr-do-sol sobre o Rio Negro, que separa Viedma de Carmen de Patagones |
Jantei num restaurante barato e
simpático próximo ao hotel, enquanto os dois testaram o fogãozinho a gás que
trouxeram (com sucesso) e fizeram um miojo. Estava aproveitando o wi-fi
gratuito do hotel quando acontece uma coisa muito inesperada: recebo uma visita
de uma conhecida! A Gabriela Sorbi, argentina que conheci quando fazia
intercâmbio na Unicamp, leu meu post no Facebook e descobriu que eu estava na
cidade; como ela mora em Viedma, veio pro hotel me fazer uma visita.
Conversamos um pouco, e ela ofereceu ajuda para qualquer coisa que possa
precisar enquanto estiver por lá, e então nos despedimos pois já era tarde da noite.
É muito bom achar conhecidos num lugar aonde você menos espera!
Depois da visita inesperada,
fomos dormir, em nossa primeira noite oficialmente na Patagônia. Afinal, o dia
seguinte seria mais um dia passado na estrada em nossa viagem rumo ao fim do
mundo.
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