sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

5° dia


O 5° dia seria decisivo para o planejamento do resto da viagem. Era o primeiro dia em que faríamos uma viagem longa em território argentino, por estradas de pista simples e com destino a uma cidade (Viedma) que não era turística e que, portanto, poderia oferecer uma rede hoteleira bem pequena.

Com isso em mente, partimos por volta de 10:45, depois de uma breve despedida do Lúcio (que saiu cedo para trabalhar). Pegamos a autopista para o Aeroporto de Ezeiza, em cujo final se inicia a Ruta 3, que corta o litoral argentino de norte a sul e nos acompanharia até o fim do mundo. Até o começo da Ruta 3, foram inacreditáveis 4 pedágios; apesar de baratos, o fato de ter que pagar tantos pedágios apenas para deixar Buenos Aires mostrou que esse não é um problema exclusivo do Brasil (mais precisamente, de São Paulo).
 
Autopista Ezeiza-Cañuelas, para o aeroporto internacional de Ezeiza e o início da Ruta 3

Após sairmos da autopista, em Cañuelas, entramos na Ruta 3, que tem seus primeiros 50 km duplicados, até San Miguel del Monte. Pista boa e bem sinalizada, mas isso já era esperado: a incógnita seria mesmo o trecho de pista simples. E quando acabou a pista dupla, fiquei feliz de perceber que a qualidade do asfalto (praticamente impecável) e da sinalização continuariam excelentes pelo resto da viagem. O tráfego até Azul foi bastante intenso, com muitos caminhões, mas a estrada é tão reta que ultrapassá-los não foi problema em nenhum momento. Consegui rodar por longos trechos a 140 km/h, sem grandes riscos.

Início do trecho de pista simples da Ruta 3

Paisagem entre Olavarría e Coronel Pringles: extensas planícies
gramadas, usadas para pasto ou plantação de soja
Em Azul, saímos da Ruta 3 para cortarmos caminho pela Ruta Provincial 51, que saía de Olavarría e ia até Bahía Blanca, onde voltava a se encontrar com a Ruta 3. Outra incógnita: sairíamos de uma estrada principal para nos aventurarmos por estradinhas provinciais. E mais uma boa surpresa: pista ótima, muito reta e com belas paisagens pelo caminho. O trecho entre Olavarría e Coronel Pringles (que rendeu piadinhas por causa do nome) cruza extensas planícies cobertas de pasto e plantações de soja; após a última, começa uma pequena serra com mais paisagens belíssimas. Havia algum tráfego de caminhões,  provenientes das fazendas no entorno, mas nada que atrapalhasse o ritmo da viagem.

Coronel Pringles, parente do Capitão Fandangos e do General Baconzitos
Chegando em Bahía Blanca, importante porto argentino, voltamos à Ruta 3. Havia tráfego intenso ao redor da cidade, e passamos por postos policiais onde a parada era obrigatória. Diferente de Entre Ríos, porém, não houve nenhum problema: os guardas procuravam apenas mercadorias ilegais que poderiam estar sendo levadas para a Patagônia, região onde a preservação ambiental é levada a sério pelas autoridades. Pediram a carteira de motorista e os documentos do carro, conferiram o que havia no porta-malas e nos liberaram rapidamente.

Entre Bahía Blanca e Viedma, a Ruta 3 continua sendo uma longa reta de quase 300 km, com asfalto e sinalização muito bons. Isso nos garantiu prosseguir com uma excelente média de horário, mesmo com uma tempestade monstruosa nos atingindo em cheio no meio do caminho. A paisagem de longas planícies gramadas começa a mudar aqui, principalmente após cruzar o Rio Colorado: a grama começa a ficar mais esparsa, e as árvores dão lugar a arbustos. Uma paisagem mais “patagônica”, portanto.

Tempestade medonha que pegamos no caminho para Viedma: sinta o contraste no horizonte

Chegamos em Viedma por volta das 19:40, tendo rodado cerca de 915 km. Procuramos hospedagem na cidade, mas como todas estavam bastante caras, fomos a Carmen de Patagones, do outro lado do Rio Negro, para tentar a sorte por lá. E achamos um hotel razoavelmente barato (Residencial Reggiani), que nos cobrou 405 pesos (cerca de 60 reais por pessoa) por um quarto triplo. O gerente foi muito solícito e simpático, e o quarto era confortável, apesar do banheiro deprimente. O frio já começava a se fazer presente: tive que tirar a blusa da mala pela primeira vez na viagem, e o vento já começava a ficar forte.

Pôr-do-sol sobre o Rio Negro, que separa Viedma de Carmen de Patagones
Jantei num restaurante barato e simpático próximo ao hotel, enquanto os dois testaram o fogãozinho a gás que trouxeram (com sucesso) e fizeram um miojo. Estava aproveitando o wi-fi gratuito do hotel quando acontece uma coisa muito inesperada: recebo uma visita de uma conhecida! A Gabriela Sorbi, argentina que conheci quando fazia intercâmbio na Unicamp, leu meu post no Facebook e descobriu que eu estava na cidade; como ela mora em Viedma, veio pro hotel me fazer uma visita. Conversamos um pouco, e ela ofereceu ajuda para qualquer coisa que possa precisar enquanto estiver por lá, e então nos despedimos pois já era tarde da noite. É muito bom achar conhecidos num lugar aonde você menos espera!

Depois da visita inesperada, fomos dormir, em nossa primeira noite oficialmente na Patagônia. Afinal, o dia seguinte seria mais um dia passado na estrada em nossa viagem rumo ao fim do mundo.

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