De São Paulo a Río Gallegos, o
único imprevisto real da viagem, além dos preços mais elevados do que estávamos
pensado, foi a “multa” aplicada pelos policiais da província de Entre Ríos.
Pois bem, parece que todos os imprevistos que poderiam acontecer pelo caminho
foram reunidos no nosso 8º dia de viagem.
Saímos de Río Gallegos por volta
de 10 da manhã, com destino ao Paso de la Integración Austral, o complexo
fronteiriço entre a Argentina e o Chile. A Terra do Fogo não é conectada ao
resto da Argentina por via terrestre, portanto era necessário entrar em
território chileno para depois retornar ao território argentino, um processo
que nos custaria a passagem por 4 aduanas no mesmo dia. Estes quilômetros
finais da Ruta 3 ainda na parte continental (a estrada continua na Ilha Grande
da Terra do Fogo, depois da parte chilena) eram especialmente bonitos: para
qualquer lado que se olhasse, haviam quilômetros e quilômetros de pasto, com
uma grama bem rala, sem uma única árvore, montanha ou até mesmo arbusto. As
únicas coisas que rompiam a monotonia da paisagem eram as ovelhas, cuja criação
é a principal atividade econômica da região, e (surpresa!) os guanacos, uma
espécie de lhama menor e mais peluda.
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| Visão da Ruta 3 após Río Gallegos: desolação total |
Depois de uns 80 km rodados,
chegamos ao Paso de la Integración Austral, que reúne no mesmo prédio as
aduanas do Chile e da Argentina. Como na primeira aduana, em Paso de los
Libres, o trâmite foi rápido e não houve nenhum problema, achamos que o
processo se repetiria por aqui. Ledo engano: mal chegamos na primeira aduana e
vimos um estacionamento lotado de carros e de pessoas esperando para fazer o
mesmo que nós. Chegamos às 10:50 e pegamos uma fila que dava voltas dentro do
prédio. Resultado: conseguimos prosseguir viagem apenas às 13:10, depois de preencher
formulários, apresentar documentos e pegar novos papéis para juntar aos
antigos.
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| Paso de la Integración Austral: filas, filas e mais filas |
Depois do atraso, seguimos pela
Ruta 255, a estrada chilena que serve de continuação à Ruta 3 argentina. A
pista é de concreto, lisinha, e quase compensou o estresse da aduana. Porém,
graças a uma placa quebrada, passamos a entrada para a balsa em Punta Delgada,
que nos levaria para atravessar o Estreito de Magalhães. Tivemos que voltar uns
10 km depois de perceber o erro; pelo menos, quando chegamos, a balsa já estava
saindo e atravessou todo o estreito em menos de 10 minutos, com direito a uma
bela visão durante o caminho.
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| Balsa para atravessar o Estreito de Magalhães, um dos lugares mais perigosos para navegação |
Após a balsa, chegou a parte da
estrada que era de rípio (uma espécie de cascalho mais grosso e consolidado no
solo), a grande incógnita da viagem. Fomos seguindo o fluxo de carros depois da
balsa, e acabamos caindo numa estrada MUITO ruim, com um buraco a cada meio
metro, mais ou menos. A velocidade variava entre 60 km/h em alguns poucos
trechos e entre 20 e 30 km/h na grande maioria da estrada. Pra piorar ainda
mais a situação, estava chovendo. Demoramos mais de 3 horas para cruzar os 120
km de rípio e chegar no vilarejo de San Sebastián, onde voltaríamos a entrar na
Argentina. Mas o pior ainda estava por vir.
| Estrada de rípio, no Chile: acredite, esses 21 km até San Sebastián pareceram mais longos que os 5500 km até Ushuaia |
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| Aduana chilena em San Sebastián, literalmente no meio do nada |
Passamos direto pela aduana
chilena, pois não fomos parados por nenhum guarda. Rodamos mais uns 10 km de
rípio até chegar na aduana argentina. Quando chegamos, porém, uma deliciosa
surpresa: teríamos que ter passado pela aduana chilena primeiro, para acertar
nossa saída do Chile. E lá vamos nós, voltar esses 10 km para fazer os trâmites
necessários. Feito o processo, voltamos em direção à aduana argentina, debaixo
de chuva. Eis que percebo que o carro começa a “dançar” na pista, saindo de
traseira. Primeiro achei que fosse por causa do cascalho molhado, mas logo
percebi que havia alguma coisa errada. Quando desço para ver, nova surpresa:
pneu furado. Rodei mais 2 km com o pneu vazio até chegar na aduana argentina,
que era coberta, onde poderia trocá-lo. E como desgraça pouca é bobagem, assim que
o tirei percebi que ele tinha um rasgo enorme e estava, portanto, completamente
inutilizado. Rodei com o estepe até Río Grande, a uns 80 km da aduana, onde
comprei um novo pneu por módicos 550 pesos (algo em torno de 250 reais). Mais
um gasto alto e inesperado para a viagem.
| Pelo menos vimos guanacos no caminho... |
Depois de tantos contratempos, já
eram 21:30 da noite quando finalmente consegui comprar e trocar o pneu. Como
ainda tinham mais de 200 km até Ushuaia, decidimos passar a noite em Río Grande
e partir pela manhã, bem cedo. Ficamos na Hostería Río Grande, que nos ofereceu
um quarto bem apertado e com um banheiro lastimável por 410 pesos (algo em
torno de 185 reais). O dono era um senhor simpático, mas meio canastrão; a boa
notícia é que conseguimos trocar nossos dólares com ele por uma taxa ótima, de
5,50 pesos por dólar (nas casas de câmbio, a taxa estava em torno de 4,80).
Fizemos um miojo cada um, com o
fogãozinho a gás do Marcos, e fomos dormir para acordar cedo no dia seguinte. A
Ruta 3 na Terra do Fogo é inteiramente asfaltada, mas depois de tudo que
aconteceu, era melhor se prevenir contra o pior.




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