Olá pessoal! Renato aqui. O blog esteve sem atualizações por
muito tempo, porque não encontramos tempo hábil (nem internet decente) para
atualizá-lo decentemente. Como os dois estão em Torres Del Paine e eu ficarei
no hotel por 2 dias, aproveitarei esse tempo para contar como foram nossos dias
até aqui.
No 3º dia, partimos de Uruguaiana, na fronteira com a
Argentina, com destino a Buenos Aires. No dia anterior, havíamos dado uma
passada em Paso de Los Libres, já na Argentina, após conseguirmos a tão falado “carta
verde” aos 45 do segundo tempo. Não sei quanto aos outros, mas o que eu vi foi
uma cidade feia, com casas decadentes e poucas ruas asfaltadas; o que salvou
foi a orla do Rio Uruguai, que rendeu belas fotos com o pôr-do-sol. Descobri
também a minha primeira surpresa desagradável da viagem: ao contrário do que
diziam praticamente todos os guias e relatos de viagem, a gasolina na Argentina
estava tão ou mais cara que a brasileira. Achei que fosse pela proximidade com
a fronteira, mas seguindo viagem descobrimos que o preço subiu, e muito, de uns
dois anos pra cá. Em Paso de Los Libres, o preço estava na casa dos 7 pesos o litro
(algo próximo a 3 reais).
No dia seguinte, acordamos cedo, tomamos café e abastecemos
o carro em Uruguaiana, para então prosseguirmos viagem já em território
argentino. Antes, porém, era necessário realizar os trâmites na aduana
argentina, após a ponte sobre o Rio Uruguai. Tudo foi feito em aproximadamente
20 minutos, e não tivemos grandes problemas com a comunicação (aproveitamos a
oportunidade para testarmos nosso “portunhol”, com bons resultados). Feitos os
trâmites, seguimos viagem, parando num posto próximo à fronteira para comprar
um guia rodoviário, que se mostraria essencial para o restante de nossa viagem.
Depois de um pequeno trecho em uma estrada de ligação,
entramos na Ruta 14, que acompanha a fronteira e liga as províncias de
Misiones, Corrientes e Entre Ríos. E veio então a primeira surpresa agradável
da viagem: a estrada estava quase inteiramente duplicada, desde a fronteira até
Buenos Aires, com uma pista de concreto impecável e bem sinalizada. Haviam alguns
trechos ainda em duplicação em Corrientes, mas que não acumulavam mais de 20
km. Na rodovia, velocidade máxima de 130 km/h e mínima (!) de 60 km/h; todos
que me conhecem dirigindo sabem o quanto eu devo ter gostado disso, hehe.
Conseguimos boas médias de velocidade, não só pela boa
qualidade da pista, mas também pela própria disposição da estrada: ela é
absolutamente reta, assim como (descobriríamos mais tarde) a maior parte das
estradas da Argentina. A paisagem era interessante: grandes estancias de onde saem boa parte da
produção de carne bovina do país. Outro ponto positivo é que a estrada não
passa por dentro de uma única cidade, e tinha pouco movimento na parte mais ao
norte.
| Ruta 14, entre Chajarí e Concórdia |
Pois bem, seguindo viagem passamos por diversos postos
policiais, já com o alerta de que os policiais argentinos das províncias
próximas à fronteira eram notórios por serem corruptos com veículos estrangeiros.
Talvez por ser dia de Natal, não encontramos policiais em quase nenhum deles. Mas
bem, como diz a Lei de Murphy, “se algo pode dar errado, então dará errado”. E
não deu outra: entre Ubajay e San José, passamos por um posto policial e um
deles me pediu para encostar o carro. O policial, simpático, me disse que
estava acima do limite de velocidade (que na frente do posto, era de 60 km/h).
Reduzi bastante a velocidade ao passar, mas provavelmente estava acima dessa
velocidade, assim como todos os carros que passaram comigo; porém, só eu fui
parado (por motivos óbvios). Ele disse que deveria assinar e pagar a multa,
portanto desci do carro para resolver o assunto. Quando fui conversar com o
outro policial da guarita, ele me mostrou uma cópia da lei argentina (sabe-se
lá se era verdadeira) e me mostrou o valor da multa: era de inacreditáveis 1900
pesos, o equivalente a mais de 800 reais. Disse que não tinha esse valor, e
perguntei se podíamos “negociar” o preço; ele respondeu que não. Porém, dada
minha insistência em não ter o valor, ele perguntou se era minha primeira
infração na Argentina; como disse que sim, ele reduziu o valor da “multa” para
módicos 800 pesos, ou 360 reais. Creio que em nenhum lugar do mundo uma multa
por velocidade custaria tão alto assim, então era mais que óbvio se tratar de
um caso de corrupção explícita. Na hora, deveria ter tentado “negociar” o valor
para baixá-lo mais, mas acabei ficando sem reação e paguei a multa. Voltei para
o carro com fogo saindo pelas ventas e bastante desanimado, pensando até em
encurtar a viagem. Acertamos, porém, que iríamos rachar o valor da multa entre
nós três.
Depois desse incidente inesperado e desagradável,
prosseguimos viagem, mantendo a boa média de velocidade. A estrada continuou
reta, com pista e sinalização excelentes, mas com um tráfego cada vez maior ao
modo que nos aproximávamos de Buenos Aires. Na altura do delta do Rio Paraná, a
Ruta 14 acaba e se junta com a Ruta 12, que vem do interior do país e termina
alguns quilômetros à frente, na cidade de Zárate, desembocando na Ruta 9, que
liga Córdoba (segunda maior cidade argentina) a Buenos Aires. Nesta altura, o
tráfego era intenso, e é necessária alguma atenção com as placas, pois há
muitos trevos.
Neste último trecho, o tráfego era intenso. Seguimos por 35
km pela Ruta 9 até ela desembocar em uma das várias auto-estradas que cortam
Buenos Aires de ponta a ponta. O limite de velocidade, mesmo no trecho urbano,
continua sendo de 130 km/h (ponto para a Argentina!), mas o tráfego se
assemelha ao de uma grande avenida, por isso é difícil manter essa velocidade.
Cruzamos Buenos Aires e acabamos saindo na famosa Avenida 9 de Julio, que
concentra em seu entorno o Obelisco, a Casa Rosada, a Plaza de Mayo e o centro
de Buenos Aires em geral. Alerta aos motoristas: as faixas de trânsito não
significam muita coisa para os airenses, portanto é necessário cuidado com
carros (principalmente táxis) se jogando na sua frente sem aviso prévio.
O Marcos havia combinado de passarmos nossas duas noites em
Buenos Aires na casa de um tal de Lúcio, que havia conhecido por um site de
hospedagem voluntária na internet. Chegando na casa dele, o mesmo não se
encontrava e disse que estaria lá dentro de 40 minutos, portanto partimos para
o centro da cidade (que estava bem vazio, por ser feriado) para comer algo.
Paramos em um restaurante que parecia modesto, e eu aproveitei para
experimentar a famosa parrilla, que
são vários tipos de carne e miúdos feitos na churrasqueira e servidos sozinhos
(sem sequer um arrozinho). Comi, e confesso que achei bem meia boca: o vacio, uma parte do corte da fraldinha,
estava ressecado e os miúdos tinham um gosto amargo e bem ruim. A lingüiça, por
outro lado, era bem temperada e foi a melhor parte do prato.
Depois do jantar (que custou caro), voltamos à casa do
Lúcio, onde desta vez o encontramos. Sabíamos apenas que ele era músico, e foi
exatamente esse estereótipo de pessoa que encontramos: um sujeito alternativo,
que trabalha como freelancer dando
aulas aqui e ali, mora sozinho num apartamento apertado e antigo do centro
(dividido com um colega que não estava lá) e muito simpático. Saímos para um
passeio noturno, à busca de algum bar, mas não encontramos nenhum aberto, então
ficamos simplesmente conversando e andando. Bons papos sobre música, política,
diferenças culturais e sobre a vida de cada um, aproveitando para testar nossa
capacidade de se comunicar com estrangeiros. E depois de um dia tão intenso,
fomos todos dormir depois de um bom banho.
O saldo do dia foi de 686 km rodados, com 6 pedágios durante
o caminho (dois dentro de Buenos Aires), com preços variando entre 2,50 e 11,50
pesos. Saímos da aduana em Paso de Los Libres às 11:27 da manhã e chegamos à
casa do Lúcio às 18:05. Dormimos cedo, pois no dia seguinte acordaríamos
igualmente cedo para passar nosso único dia em Buenos Aires.
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