No 10º dia, pela primeira vez em
toda a viagem, pude dormir até tarde e recuperar as energias gastas em 9 dias
de direção. Os planos para o dia era visitar o Glaciar Martial e o Parque
Nacional da Terra do Fogo, ambos nos arredores da cidade. Como os restaurantes
da cidade eram bem caros (assim como quase tudo), comemos apenas uns
salgadinhos e partimos para o glaciar.
O glaciar fica no alto das montanhas
que cercam Ushuaia, único lugar onde o gelo dura o ano todo (que o digam os
picos nevados, atração indiscutível da paisagem). A primeira parte do acesso se
dá por uma estrada asfaltada, sinuosa mas em bom estado, com uma bela vista da
cidade e dos arredores. Por ela, você chega a um estacionamento com alguma infraestrutura
de serviços, onde termina o trecho que se pode ir de carro e começa a trilha
que sobe para o glaciar. Bem... eu juro que queria muito chegar ao glaciar, e
me esforcei para aguentar a trilha, mas acabei pedindo arrego nos primeiros 100
metros. A subida era bem íngreme, e eu estou completamente fora de forma. O
Marcos e o Samuel resolveram seguir pela trilha, e marcamos de nos encontrar em
3 horas no estacionamento. Deixo para eles a descrição de como foi a trilha e o
glaciar em si.
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| Para provar que eu não tô mentindo: Level of Difficulty: Dificult. |
Enquanto isso, dei uma passada no
hostel e resolvi dar uma passeada
pela cidade. Estacionei o carro próximo à orla e dei uma volta entre as várias
praças e monumentos que ficam no entorno. Aliás, é incrível como os argentinos
valorizam mais a sua cultura e história do que nós, brasileiros: toda cidade
tem ao menos um monumento em homenagem a algum dos heróis da história
argentina. Sem dúvida, algo que podíamos aprender com nossos hermanos.
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| Memorial aos mortos nas Malvinas |
A maior e mais simbólica delas é
a Plaza de Las Malvinas, que relembra a guerra pelas ilhas que traumatizou a
Argentina e chegou a preocupar os britânicos em seu desenrolar. As ilhas foram
ocupadas por tropas argentinas em 1982, sob o comando do general Leopoldo
Galtieri, então chefe da junta militar que governava o país. Houve grande apoio
popular para essa ação, já que a Argentina reivindica o controle sobre as ilhas
desde que essas foram invadidas pelos britânicos em 1830. Apesar do apoio, os
argentinos foram incontestavelmente derrotados, apesar de causarem grandes
danos aos britânicos, que tiveram 4 navios de grande porte afundados pela Força
Aérea Argentina. A praça é cercada de placas com fotos da guerra, vistas do
lado argentino, e há um grande memorial com o nome de todos os mortos. Existe
também um monumento com a forma das ilhas, onde se lê a inscrição “Ao povo de Ushuaia, que com seu sangue
regaram as raízes de nossa soberania sobre as Malvinas. Voltaremos!”.
Certamente um prato cheio para os que gostam de história.
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| Plaza de Las Malvinas: as placas mostram fotos do lado argentino do combate |
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| Segundo a placa explicativa ao lado do monumento, "a nudez dos corpos representa a nudez dos sentimentos, e o oco das ilhas, o vazio de não tê-las recuperado". |
Depois do passeio, voltei ao pé
do glaciar para buscar o Marcos e o Samuel. Depois de uma passada rápida no hostel, seguimos para nosso segundo
destino do dia, o Parque Nacional da Terra do Fogo. A entrada fica próxima da
cidade, e o acesso é feito por uma estrada de rípio, que felizmente estava em
bom estado. A entrada custa 70 pesos para cidadãos do Mercosul, e o preço vale
muito a pena: a paisagem natural é uma das mais bonitas que vimos na viagem.
Existem diversas trilhas, de vários graus de dificuldade, para diversas
atrações do parque. Além disso, na Baía de Lapataia, existe uma placa que
indica o final da Ruta 3, nossa velha companheira de viagem, após 3079 km desde
Buenos Aires. Não nos aprofundamos muito nas trilhas do parque: fomos apenas na
castorera, que como sugere o nome,
passa pelos lugares habitados por castores, animal introduzido pelo homem na
Terra do Fogo e que causou certa devastação no meio ambiente fueguino. Para completar a visita,
quando estávamos indo embora, uma raposa parou do lado do carro, nos observando
atentamente. Só isso já teria valido a visita!
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| Marco final da Ruta 3, que acompanha o litoral argentino de norte a sul |
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| Uma das belíssimas paisagens do Parque Nacional da Terra do Fogo |
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| Um visitante curioso |
Finalmente, então, voltamos ao hostel, comemos o que sobrou do macarrão
de ontem e aproveitamos o bom sinal do wi-fi, coisa rara na viagem. Dormimos
cedo, pois no dia seguinte teríamos que enfrentar as aduanas, o rípio, a balsa
e os 650 km até Punta Arenas, no Chile, a próxima parada da viagem.
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