No 6° dia, tomamos café por volta
das 9:30, como combinado no dia anterior com o gerente do hotel. Após o café,
enquanto acertávamos o valor, o gerente nos sugeriu uma parada na estrada: o
balneário de San António Este, que exigiria um desvio de 30 km da Ruta 3 por
uma pequena estrada provincial. Como havíamos cortado do roteiro a cidade de
Mar del Plata, principal balneário argentino, decidimos visitar a pequena
cidade para conferir ao menos uma das praias argentinas.
Saímos do hotel às 10:53, mas
antes de prosseguir viagem pela Ruta 3, tinha uma coisa a fazer: retribuir a
visita da Gabriela no dia anterior. Fomos então para Viedma, do outro lado do
rio, no endereço que ela havia nos dado. Demos um pacote de café brasileiro
(algo muito apreciado fora do país, pelo que nos disseram alguns argentinos) e
conversamos por alguns minutos. Depois de nos despedirmos, passeamos pela cidade
para tirarmos algumas fotos, e foi bom descobrir que ela era bastante bonita: a
orla do Rio Negro é muito bem cuidada e cheia de árvores, praças e monumentos,
além de proporcionar uma bela visão de Carmen de Patagones, do outro lado do
rio. Tiramos várias fotos, e partimos então rumo à Ruta 3.
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| Orla do Rio Negro, em Viedma, com Carmen de Patagones ao fundo |
| Ruta 3, entre Viedma e San António Oeste: arbustos e solo seco |
É impressionante como a paisagem
muda drasticamente em um espaço relativamente pequeno: até Bahía Blanca,
grandes planícies gramadas; depois da cidade, a grama e as árvores ficam mais
esparsas, e os arbustos começam a aparecer. Depois de Viedma, porém, a mudança
é mais evidente: as árvores literalmente somem, a grama fica menos verde e mais
amarelada, o solo fica mais seco e farelento e os arbustos começam a dominar a
paisagem. Essa seria a paisagem padrão que nos acompanharia por nossa estada na
Patagônia.
Depois de cerca de 100 km de
estrada, saímos da Ruta 3 pela pequena estrada de acesso a San António Este. Ao
chegarmos, percebemos o quanto o desvio valeu a pena: uma cidade bem pequena,
claramente turística, com belas casinhas ao longo da praia e o mar mais azul
que vi em minha vida. Paramos por cerca de 15 minutos para descer e tirar
fotos, e então voltamos à estrada, pois o caminho era longo.
| Balneário de San António Este, com San António Oeste, sua cidade-irmã, ao fundo |
Abastecemos em San António Oeste
(o outro lado da pequena cidade), por um preço de 6,80 pesos o litro de
gasolina. Aproveitamos para comprar algumas coisas para comer, e seguimos
viagem. E cerca de 100 km à frente, na cidade de Sierra Grande, descobrimos um
posto na beira da pista vendendo gasolina a... 4,80 pesos o litro. Havíamos
rodado pouco, e o tanque estava quase cheio, então seguimos viagem, lamentando
não termos esperado mais um pouco para abastecer. E curiosamente, esse preço
(em média) se manteria pelo resto da nossa viagem pela Patagônia Argentina. Mais
uma (grata) mudança drástica em um curto espaço de tempo.
| Paisagem à beira da Ruta 3, entre Puerto Madryn e Trelew |
Nossa próxima parada foi em
Trelew, 180 km à frente, para abastecermos já com os novos e reduzidos preços.
Aproveitamos para dar uma volta rápida pela cidade, que se mostrou bem interessante:
casas pequenas e bonitas, com jardins bem cuidados e ruas organizadas. Segundo
lemos em nosso guia de viagem, Trelew é uma cidade de colonização galesa (!), e
seu nome vem do galês tre (cidade) e lew (homenagem a Lewis Jones, que
expandiu a ferrovia que corta a cidade). Sem dúvida um lugar que mereceria uma
parada mais longa, não fosse o nosso tempo (e dinheiro) curto.
Os 380 km que separam Trelew de
Comodoro Rivadavia, nosso destino do dia, não tem nenhuma cidade digna de nota,
e os postos são escassos. Além disso, a paisagem ficava cada vez mais
“patagônica”: o solo ia ficando cada vez mais seco e arenoso, e os arbustos
cada vez mais presentes. A estrada é absolutamente reta e plana na maior parte
do trecho, o que possibilita boas médias de velocidade. A alguns quilômetros de
Comodoro, porém, começa uma pequena serra que torna a estrada razoavelmente
sinuosa, e inspira um cuidado maior na direção.
| Chegada em Comodoro Rivadavia: as montanhas parecem dunas, graças ao solo bem seco |
Chegamos em Comodoro Rivadavia às
20:27 da noite. Aliás, dizer “noite” é quase uma piada por aqui: o sol ainda
estava alto por esse horário, e só foi realmente escurecer depois da 22:00.
Passamos um bom tempo pesquisando hotéis, apenas para voltar ao primeiro que
vimos quando chegamos: o Hotel Del Mar, que nos cobrou 460 pesos pela estadia,
num quarto com banheiro privado e calefação. Foi o maior gasto que tivemos com
hospedagem, e pudemos conferir o que já diziam nossos guias de viagem: Comodoro
é uma cidade cara. Sua principal atividade econômica é o petróleo, e isso é
bastante visível pela quantidade de navios no movimentado porto (o mais
importante da Patagônia) e pelas plataformas marítimas de extração de óleo. A
cidade, de 135 mil habitantes (praticamente uma metrópole em termos
patagônicos), cresceu muito na última década com o boom internacional do petróleo, e os preços acompanharam esse
crescimento. Tirando esse contratempo, Comodoro é uma cidade interessante,
cercada por altas colinas arenosas e com uma orla movimentada, mas pouco
bonita. A maior atração da cidade não é a paisagem, mas sim a vasta oferta de
serviços, pouco comum nas cidades da região.
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| Orla de Comodoro Rivadavia, com o porto ao fundo |
O clima mudou juntamente com a
paisagem ao longo da viagem: faziam 18 graus quando chegamos em Comodoro, uma
temperatura que pode ser considerada amena. Mas não se engane: o vento é
constante, forte e gela até os ossos. A sensação térmica fazia parecer que
estava muito mais frio do que realmente estava. Além do mais, no dia em que
chegamos, estava ameaçando chuva, e a umidade ajudava a tornar tudo ainda mais
frio.
Saímos para jantar e paramos num
trailer no meio de uma avenida, um dos poucos lugares que encontramos aberto.
Comemos choripán, a versão argentina
do cachorro-quente, que em vez de salsicha é feito com uma lingüiça frita e
temperada e com molho chilli. Uma
refeição boa e barata, que me deixou bem satisfeito. O dono do trailer,
conforme descobrimos na hora de pagar, era cantor e também vendia seus CDs de
música folclórica argentina. O Marcos quase comprou um CD do cara para levar,
mas acabou desistindo porque o dinheiro já estava ficando curto.
Depois da janta, voltamos para o
hotel, pois já era tarde. Aproveitamos um pouco do wi-fi do hotel, que era bem
ruim, e fomos dormir. No dia seguinte, partiríamos para Río Gallegos, a última
cidade do continente (Ushuaia fica na Ilha Grande da Terra do Fogo) e capital
da província de Santa Cruz. O dia acumulou 950 km rodados, e graças às várias
paradas, foi um dos mais longos.


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