sábado, 5 de janeiro de 2013

6° dia


No 6° dia, tomamos café por volta das 9:30, como combinado no dia anterior com o gerente do hotel. Após o café, enquanto acertávamos o valor, o gerente nos sugeriu uma parada na estrada: o balneário de San António Este, que exigiria um desvio de 30 km da Ruta 3 por uma pequena estrada provincial. Como havíamos cortado do roteiro a cidade de Mar del Plata, principal balneário argentino, decidimos visitar a pequena cidade para conferir ao menos uma das praias argentinas.

Saímos do hotel às 10:53, mas antes de prosseguir viagem pela Ruta 3, tinha uma coisa a fazer: retribuir a visita da Gabriela no dia anterior. Fomos então para Viedma, do outro lado do rio, no endereço que ela havia nos dado. Demos um pacote de café brasileiro (algo muito apreciado fora do país, pelo que nos disseram alguns argentinos) e conversamos por alguns minutos. Depois de nos despedirmos, passeamos pela cidade para tirarmos algumas fotos, e foi bom descobrir que ela era bastante bonita: a orla do Rio Negro é muito bem cuidada e cheia de árvores, praças e monumentos, além de proporcionar uma bela visão de Carmen de Patagones, do outro lado do rio. Tiramos várias fotos, e partimos então rumo à Ruta 3.

Orla do Rio Negro, em Viedma, com Carmen de Patagones ao fundo

Ruta 3, entre Viedma e San António Oeste: arbustos e solo seco
É impressionante como a paisagem muda drasticamente em um espaço relativamente pequeno: até Bahía Blanca, grandes planícies gramadas; depois da cidade, a grama e as árvores ficam mais esparsas, e os arbustos começam a aparecer. Depois de Viedma, porém, a mudança é mais evidente: as árvores literalmente somem, a grama fica menos verde e mais amarelada, o solo fica mais seco e farelento e os arbustos começam a dominar a paisagem. Essa seria a paisagem padrão que nos acompanharia por nossa estada na Patagônia.

Depois de cerca de 100 km de estrada, saímos da Ruta 3 pela pequena estrada de acesso a San António Este. Ao chegarmos, percebemos o quanto o desvio valeu a pena: uma cidade bem pequena, claramente turística, com belas casinhas ao longo da praia e o mar mais azul que vi em minha vida. Paramos por cerca de 15 minutos para descer e tirar fotos, e então voltamos à estrada, pois o caminho era longo.

Balneário de San António Este, com San António Oeste, sua cidade-irmã, ao fundo
Abastecemos em San António Oeste (o outro lado da pequena cidade), por um preço de 6,80 pesos o litro de gasolina. Aproveitamos para comprar algumas coisas para comer, e seguimos viagem. E cerca de 100 km à frente, na cidade de Sierra Grande, descobrimos um posto na beira da pista vendendo gasolina a... 4,80 pesos o litro. Havíamos rodado pouco, e o tanque estava quase cheio, então seguimos viagem, lamentando não termos esperado mais um pouco para abastecer. E curiosamente, esse preço (em média) se manteria pelo resto da nossa viagem pela Patagônia Argentina. Mais uma (grata) mudança drástica em um curto espaço de tempo.

Paisagem à beira da Ruta 3, entre Puerto Madryn e Trelew
Nossa próxima parada foi em Trelew, 180 km à frente, para abastecermos já com os novos e reduzidos preços. Aproveitamos para dar uma volta rápida pela cidade, que se mostrou bem interessante: casas pequenas e bonitas, com jardins bem cuidados e ruas organizadas. Segundo lemos em nosso guia de viagem, Trelew é uma cidade de colonização galesa (!), e seu nome vem do galês tre (cidade) e lew (homenagem a Lewis Jones, que expandiu a ferrovia que corta a cidade). Sem dúvida um lugar que mereceria uma parada mais longa, não fosse o nosso tempo (e dinheiro) curto.

Os 380 km que separam Trelew de Comodoro Rivadavia, nosso destino do dia, não tem nenhuma cidade digna de nota, e os postos são escassos. Além disso, a paisagem ficava cada vez mais “patagônica”: o solo ia ficando cada vez mais seco e arenoso, e os arbustos cada vez mais presentes. A estrada é absolutamente reta e plana na maior parte do trecho, o que possibilita boas médias de velocidade. A alguns quilômetros de Comodoro, porém, começa uma pequena serra que torna a estrada razoavelmente sinuosa, e inspira um cuidado maior na direção.

Chegada em Comodoro Rivadavia: as montanhas parecem dunas, graças ao solo bem seco

Chegamos em Comodoro Rivadavia às 20:27 da noite. Aliás, dizer “noite” é quase uma piada por aqui: o sol ainda estava alto por esse horário, e só foi realmente escurecer depois da 22:00. Passamos um bom tempo pesquisando hotéis, apenas para voltar ao primeiro que vimos quando chegamos: o Hotel Del Mar, que nos cobrou 460 pesos pela estadia, num quarto com banheiro privado e calefação. Foi o maior gasto que tivemos com hospedagem, e pudemos conferir o que já diziam nossos guias de viagem: Comodoro é uma cidade cara. Sua principal atividade econômica é o petróleo, e isso é bastante visível pela quantidade de navios no movimentado porto (o mais importante da Patagônia) e pelas plataformas marítimas de extração de óleo. A cidade, de 135 mil habitantes (praticamente uma metrópole em termos patagônicos), cresceu muito na última década com o boom internacional do petróleo, e os preços acompanharam esse crescimento. Tirando esse contratempo, Comodoro é uma cidade interessante, cercada por altas colinas arenosas e com uma orla movimentada, mas pouco bonita. A maior atração da cidade não é a paisagem, mas sim a vasta oferta de serviços, pouco comum nas cidades da região.

Orla de Comodoro Rivadavia, com o porto ao fundo
O clima mudou juntamente com a paisagem ao longo da viagem: faziam 18 graus quando chegamos em Comodoro, uma temperatura que pode ser considerada amena. Mas não se engane: o vento é constante, forte e gela até os ossos. A sensação térmica fazia parecer que estava muito mais frio do que realmente estava. Além do mais, no dia em que chegamos, estava ameaçando chuva, e a umidade ajudava a tornar tudo ainda mais frio.

Saímos para jantar e paramos num trailer no meio de uma avenida, um dos poucos lugares que encontramos aberto. Comemos choripán, a versão argentina do cachorro-quente, que em vez de salsicha é feito com uma lingüiça frita e temperada e com molho chilli. Uma refeição boa e barata, que me deixou bem satisfeito. O dono do trailer, conforme descobrimos na hora de pagar, era cantor e também vendia seus CDs de música folclórica argentina. O Marcos quase comprou um CD do cara para levar, mas acabou desistindo porque o dinheiro já estava ficando curto.

Depois da janta, voltamos para o hotel, pois já era tarde. Aproveitamos um pouco do wi-fi do hotel, que era bem ruim, e fomos dormir. No dia seguinte, partiríamos para Río Gallegos, a última cidade do continente (Ushuaia fica na Ilha Grande da Terra do Fogo) e capital da província de Santa Cruz. O dia acumulou 950 km rodados, e graças às várias paradas, foi um dos mais longos. 

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