No 7° dia, acordamos, tomamos
café e fomos à orla para tirarmos algumas fotos, e depois passamos em uma casa
de câmbio e um posto, para abastecer o carro antes de cair na estrada. Às
10:47, estávamos de volta à nossa velha companheira Ruta 3. Porém, ela piora
consideravelmente após Comodoro: o asfalto, antes quase impecável, fica
sofrível e a estrada fica muito sinuosa, exigindo alguma atenção do motorista.
Sem contar o tráfego intenso de caminhões e carros até Caleta Olivia, a
primeira cidade depois de Comodoro, já na província argentina de Santa Cruz.
Acabamos nos perdendo em Caleta
Olivia, uma das poucas cidades que a Ruta 3 corta por dentro do perímetro
urbano (a maioria das cidades fica no entorno, e a estrada passa por fora
delas). Acabamos dando uma boa volta pela cidade até encontrarmos a saída sul
da Ruta 3, e vimos uma cidade bem feia e parecendo muito pobre. Talvez tenha
sido apenas os lugares por onde passamos, para achar a estrada, mas a impressão
que ficou da cidade foi essa.
| Paisagem da Ruta 3 entre Comodoro Rivadavia e Caleta Olivia: solo quase desértico |
| Ruta 3 acompanhando a linha costeira, próximo a Comodoro Rivadavia |
Depois de Caleta Olivia, o
asfalto melhora um pouco, mas a estrada continua sinuosa, em um claro contraste
em relação a todo o trecho anterior dentro da Argentina. Já havíamos visto no
mapa que esse seria um dos trechos mais inóspitos da viagem, e não deu outra:
foram 320 km de literalmente nada até Puerto San Julián (que fica a alguns
quilômetros da estrada) e mais 120 km até Comandante Luis Piedra Buena, uma
pequena e simpática cidade. Neste trecho, apesar da desolação, a paisagem
continua muito bonita: a Ruta 3 acompanha o litoral por um longo trecho depois
de Comodoro, e têm-se uma visão linda do mar e das praias de cascalho
absolutamente desertas. Mesmo quando a estrada se afasta do litoral, a paisagem
continua bonita, com um solo já parecido com o de um deserto e que tornava até
mesmo os arbustos esparsos.
| Vista de Comandante Luis Piedra Buena, à beira do Rio Santa Cruz |
Em Comandante Luis Piedra
Buena, tivemos que parar em mais um
posto policial, que ficam constantes conforme se vai indo para o sul. Tivemos
uma visão distante da cidade (bem pequena, segundo o guia), e vimos casinhas de
madeira com telhados triangulares que nos fizeram se sentir quase na Europa.
Depois da cidade, são mais 200 km de desolação total até nosso destino do dia,
Río Gallegos. Neste trecho, porém, existe um posto de gasolina da YPF (empresa
estatal de petróleo argentina, e que tem os postos mais baratos e confiáveis) a
uns 30 km de Piedra Buena, com loja de conveniência e hotel, aonde paramos para
abastecer. O posto, ao que parece, é mantido como forma de segurança para os
motoristas da região, pois nos próximos 170 km até Río Gallegos não há um único
posto nem vilarejo à beira da estrada. Tive que fazer algumas paradas neste
trecho, pois a paisagem monótona acabou me dando sono.
| Visão predominante na Ruta 3 entre Cmte. Luis Piedra Buena e Río Gallegos: absolutamente nada |
Chegamos ao nosso destino às
19:27, graças às duas paradas que tive que fazer para tirar um cochilo. Río
Gallegos é a capital da província de Santa Cruz, e tem uma excelente
infraestrutura de serviços. É uma cidade grande para padrões patagônicos, com
80 mil habitantes, e é a última antes do Estreito de Magalhães e da fronteira
com o Chile. Também é a terra natal dos Kirchner, e sua avenida central foi
rebatizada em homenagem a Néstor Kirchner, ex-presidente argentino morto em
2010 e marido da atual presidente, Cristina Kirchner. É uma cidade bonita e bem
organizada, mas não pode ser considerada turística. É cercada de pequenas
colinas sem uma árvore sequer, e as casas repetem o padrão europeu de Piedra
Buena e tem belos jardins gramados. Além disso, existem muitas referências às
Malvinas na cidade, pela proximidade da região com as ilhas. Sempre reforçando
o fato, claro, de que “las Malvinas son
argentinas”.
| Vista das colinas que circundam Río Gallegos, na entrada da cidade |
Ficamos hospedados no Hotel
Liporaci, onde pagamos 370 pesos (pouco mais de 50 reais por pessoa) num bom
quarto com banheiro privado, um preço bastante justo. O frio, que já estava
brabo em Comodoro, ficou absurdo: faziam 13 graus quando chegamos, mas o vento
onipresente fazia parecer que estava abaixo de zero. Resultado: blusas
fechadas, mãos no bolso e pouco tempo fora do conforto e da calefação do hotel.
Dormimos depois de fazermos algumas compras no Carrefour da cidade (onde testei
com sucesso meu cartão internacional pela primeira vez). No dia seguinte,
seguiríamos pela última e pior parte de nossa viagem ao fim do mundo: a estrada
para Ushuaia, com 100 km de rípio pelo caminho.
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