sábado, 5 de janeiro de 2013

7° dia


No 7° dia, acordamos, tomamos café e fomos à orla para tirarmos algumas fotos, e depois passamos em uma casa de câmbio e um posto, para abastecer o carro antes de cair na estrada. Às 10:47, estávamos de volta à nossa velha companheira Ruta 3. Porém, ela piora consideravelmente após Comodoro: o asfalto, antes quase impecável, fica sofrível e a estrada fica muito sinuosa, exigindo alguma atenção do motorista. Sem contar o tráfego intenso de caminhões e carros até Caleta Olivia, a primeira cidade depois de Comodoro, já na província argentina de Santa Cruz.

Acabamos nos perdendo em Caleta Olivia, uma das poucas cidades que a Ruta 3 corta por dentro do perímetro urbano (a maioria das cidades fica no entorno, e a estrada passa por fora delas). Acabamos dando uma boa volta pela cidade até encontrarmos a saída sul da Ruta 3, e vimos uma cidade bem feia e parecendo muito pobre. Talvez tenha sido apenas os lugares por onde passamos, para achar a estrada, mas a impressão que ficou da cidade foi essa.

Paisagem da Ruta 3 entre Comodoro Rivadavia e Caleta Olivia: solo quase desértico
Ruta 3 acompanhando a linha costeira, próximo a Comodoro Rivadavia
Depois de Caleta Olivia, o asfalto melhora um pouco, mas a estrada continua sinuosa, em um claro contraste em relação a todo o trecho anterior dentro da Argentina. Já havíamos visto no mapa que esse seria um dos trechos mais inóspitos da viagem, e não deu outra: foram 320 km de literalmente nada até Puerto San Julián (que fica a alguns quilômetros da estrada) e mais 120 km até Comandante Luis Piedra Buena, uma pequena e simpática cidade. Neste trecho, apesar da desolação, a paisagem continua muito bonita: a Ruta 3 acompanha o litoral por um longo trecho depois de Comodoro, e têm-se uma visão linda do mar e das praias de cascalho absolutamente desertas. Mesmo quando a estrada se afasta do litoral, a paisagem continua bonita, com um solo já parecido com o de um deserto e que tornava até mesmo os arbustos esparsos.

Vista de Comandante Luis Piedra Buena, à beira do Rio Santa Cruz
Em Comandante Luis Piedra Buena,  tivemos que parar em mais um posto policial, que ficam constantes conforme se vai indo para o sul. Tivemos uma visão distante da cidade (bem pequena, segundo o guia), e vimos casinhas de madeira com telhados triangulares que nos fizeram se sentir quase na Europa. Depois da cidade, são mais 200 km de desolação total até nosso destino do dia, Río Gallegos. Neste trecho, porém, existe um posto de gasolina da YPF (empresa estatal de petróleo argentina, e que tem os postos mais baratos e confiáveis) a uns 30 km de Piedra Buena, com loja de conveniência e hotel, aonde paramos para abastecer. O posto, ao que parece, é mantido como forma de segurança para os motoristas da região, pois nos próximos 170 km até Río Gallegos não há um único posto nem vilarejo à beira da estrada. Tive que fazer algumas paradas neste trecho, pois a paisagem monótona acabou me dando sono.

Visão predominante na Ruta 3 entre Cmte. Luis Piedra Buena e Río Gallegos: absolutamente nada

Chegamos ao nosso destino às 19:27, graças às duas paradas que tive que fazer para tirar um cochilo. Río Gallegos é a capital da província de Santa Cruz, e tem uma excelente infraestrutura de serviços. É uma cidade grande para padrões patagônicos, com 80 mil habitantes, e é a última antes do Estreito de Magalhães e da fronteira com o Chile. Também é a terra natal dos Kirchner, e sua avenida central foi rebatizada em homenagem a Néstor Kirchner, ex-presidente argentino morto em 2010 e marido da atual presidente, Cristina Kirchner. É uma cidade bonita e bem organizada, mas não pode ser considerada turística. É cercada de pequenas colinas sem uma árvore sequer, e as casas repetem o padrão europeu de Piedra Buena e tem belos jardins gramados. Além disso, existem muitas referências às Malvinas na cidade, pela proximidade da região com as ilhas. Sempre reforçando o fato, claro, de que “las Malvinas son argentinas”.

Vista das colinas que circundam Río Gallegos, na entrada da cidade

Ficamos hospedados no Hotel Liporaci, onde pagamos 370 pesos (pouco mais de 50 reais por pessoa) num bom quarto com banheiro privado, um preço bastante justo. O frio, que já estava brabo em Comodoro, ficou absurdo: faziam 13 graus quando chegamos, mas o vento onipresente fazia parecer que estava abaixo de zero. Resultado: blusas fechadas, mãos no bolso e pouco tempo fora do conforto e da calefação do hotel. Dormimos depois de fazermos algumas compras no Carrefour da cidade (onde testei com sucesso meu cartão internacional pela primeira vez). No dia seguinte, seguiríamos pela última e pior parte de nossa viagem ao fim do mundo: a estrada para Ushuaia, com 100 km de rípio pelo caminho.

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